A Fera da Branquinha: Entre o Folclore Urbano, Histórias de Bairro e a Presença da Fauna Florestal em Viamão
A Região Metropolitana de Porto Alegre guarda relatos populares que atravessam gerações e misturam o imaginário comunitário com fatos do cotidiano local. No município de Viamão, no Rio Grande do Sul, a lenda conhecida como A Fera da Branquinha se tornou um dos causos mais emblemáticos da região ao longo das últimas décadas. As narrativas sobre uma criatura misteriosa ganharam força a partir dos anos de 1960 e atingiram o auge entre a década de 1990 e os anos 2000, momento em que moradores relatavam constantes barulhos noturnos, marcas de garras em portões, animais domésticos atacados e uivos impressionantes durante as noites de lua cheia. Em um dos episódios mais conhecidos do folclore local, registrado inclusive em vídeo, um motorista de aplicativo relatou ter colidido seu automóvel modelo Fusca contra uma figura estranha que cruzou a pista, a qual se levantou e fugiu rapidamente para a mata fechada após o impacto.
A busca por explicações racionais para os episódios de violência contra os animais na zona rural e periférica da cidade sempre caminhou lado a lado com os mitos urbanos. Uma das hipóteses mais concretas para explicar os ataques aos criações e animais de estimação envolve a presença da onça-parda, espécie também denominada puma ou suçuarana. O Ibama e o Comando Ambiental da Brigada Militar chegaram a realizar averiguações detalhadas na zona rural de Viamão, nas proximidades do limite com o município de Alvorada, após registros de cães mortos e cavalos feridos em uma mesma propriedade rural. Durante a vistoria técnica nas áreas de mata e terreno úmido, os especialistas identificaram pegadas compatíveis com o felino e marcas profundas de garras em árvores, confirmando que o animal ameaçado de extinção transita pela região, muito embora os confrontos diretos com seres humanos sejam extremamente raros na literatura biológica.
Além da fauna nativa, uma figura humana singular ajudou a alimentar o mito da criatura ao longo do tempo. Uma investigação jornalística realizada por uma equipe local buscou aprofundar as origens dos relatos e acabou encontrando familiares de um antigo morador da cidade conhecido como Seu Antônio. Vendedor de ervas medicinais, chás e bromélias, ele era uma figura folclórica conhecida nas imediações do Parque Saint’Hilaire. De acordo com os relatos fornecidos por seus próprios parentes após a sua morte, o idoso costumava confeccionar e vestir trajes inteiramente cobertos por barba-de-pau, uma planta epífita abundante na vegetação local que se assemelha a pelos densos e escuros, conferindo-lhe uma aparência verdadeiramente assustadora no escuro das estradas de terra.
O comportamento excêntrico e o gosto pelo consumo de bebidas alcoólicas faziam com que o morador saísse durante a noite para assustar a vizinhança por mero entretenimento pessoal. Os relatos familiares indicam que ele se divertia com a reação das pessoas e com os boatos espalhados pelo bairro, chegando a fugir correndo pela vegetação em ocasiões nas quais foi perseguido por homens armados com facões ou que disparavam armas de fogo para o alto. A revelação pública feita pela família trouxe uma camada adicional de explicação para os avistamentos de uma figura bípede e peluda caminhando pelas sombras das vilas de Viamão ao longo de anos.
A construção do mito em torno da Fera da Branquinha demonstra como elementos da realidade biológica, tragédias rurais e figuras excêntricas da própria comunidade podem se fundir no imaginário coletivo. Enquanto os ataques aos animais no campo encontram sustentação na presença comprovada de grandes felinos na bacia hidrográfica da região, a figura do homem mascarado com vegetação nativa explica os avistamentos visuais e os encontros assustadores nas estradas. O fenômeno mostra que a cultura popular gaúcha se renova ao misturar o medo da natureza com a inventiva capacidade humana de criar histórias.
Na sua avaliação, os episódios contados em Viamão foram motivados pelas peraltices do Seu Antônio, pela presença real da onça-parda na região ou por uma combinação dessas duas forças na mente dos moradores?


